Em uma casa comum, em uma rua comum, havia uma mulher cuidando de tarefas comuns. O café coava enquanto o sol se esgueirava pelas frestas da cortina, iluminando o chão de madeira. O cheiro do sabão misturava-se ao aroma do pão recém-saído da torradeira. A lista mental do dia era revisada enquanto ela dobrava uma toalha ou colocava a chaleira no fogo.
Ela era doce, gentil e animada na maior parte do tempo. Era a coordenadora do caos, a maestria de uma sinfonia diária de compromissos, prazos e responsabilidades. Com uma logística pré definida e uma agenda que se moldava às exigências da vida, ela dançava entre os afazeres de casa e as demandas do mundo lá fora como uma bailarina que conhece bem cada movimento do palco – o segredo é que, na realidade, ela era uma iniciante.
Os hormônios, às vezes, a puxavam para um mau humor passageiro, mas nada que uma boa noite de sono não curasse. No dia seguinte, lá estava ela outra vez, enfrentando o mundo com disposição. Porque, simplesmente, ela era feliz. Sabe aquelas pessoas que simplesmente são felizes? Sem precisar de justificativas, sem precisar de grandes feitos ou acontecimentos extraordinários. Apenas felizes. Então, era essa mulher.
Quando estava de mau humor, ainda era feliz. Quando cozinhava – e definitivamente não era apaixonada por isso – ainda era feliz. Quando tudo saía do controle e o medo da desordem a deixava apavorada, sua ansiedade tentava lhe roubar o fôlego, mas, no fim, lá estava ela: feliz. Não uma felicidade ingênua ou desavisada, mas uma felicidade que coexistia com as dificuldades, que sobrevivia ao cansaço e às inquietações do dia a dia.
Ela era feliz por si mesma, mas também pelos que amava. Nos dias em que não estava bem, ainda assim se alegrava com o sorriso de quem estava ao seu redor. Encontrava conforto nos pequenos detalhes – no chá quente ao fim da tarde, no abraço de quem chegava, no cheiro de chuva batendo na janela.
Mas havia algo curioso. Quando chegava em casa, quando as cortinas do palco se fechavam e o espetáculo terminava, era ali que ela podia finalmente soltar a respiração que segurava o dia todo. Podia tirar a armadura e o punhal invisível que carregava para se defender das batalhas cotidianas. Vestia roupas claras, macias, e permitia-se ser.
Nos momentos em que ninguém olhava, ela chorava. Chorava de cansaço, de alívio, de saudade, de frustrações acumuladas em pequenos espaços entre uma tarefa e outra. Mas o choro não a tornava menos feliz. Porque a felicidade dela não era frágil, nem estava atrelada à ausência de dificuldades. Seus sentimentos eram passageiros, mas sua felicidade era uma escolha, uma condição que nenhum dia ruim poderia apagar.
E assim, entre a dança da rotina e as pausas para respirar, ela seguia. Com um sorriso no rosto ou uma lágrima escorrendo, com a paz de quem sabe que ser feliz não é sobre nunca sofrer, mas sobre saber encontrar luz mesmo quando as sombras se fazem presentes.

