Já reparou que a fúria tem cheiro? Não de queimado, mas de sangue pulsando rápido demais, de pele quente, de ar que falta no meio de uma respiração que não termina. A fúria tem gosto. Amargo, ácido, cortante. É como morder uma palavra engolida tempo demais.

Outro dia, senti essa fúria. Ela veio como um trovão no peito, um relâmpago de dentro para fora. Tudo começou com uma injustiça. Daquelas que fazem o estômago revirar e o coração tamborilar num ritmo frenético. Daquelas que te fazem segurar o ar, como se prendê-lo resolvesse alguma coisa.

E então me dei conta: se eu sentia fúria, era porque algo dentro de mim não aceitava aquilo. Se eu me enfurecia, era porque havia dentro de mim um senso de justiça gritando, pulsando, querendo espaço. E percebi que essa revolta não era um peso a ser carregado, mas uma chama a ser entendida.

Já pensou nisso? Que um “sentimento ruim” pode ser a prova de que algo dentro de você está vivo? Que sua raiva pode ser sua bússola, te mostrando onde doeu, onde importa, onde há luta a ser travada?

Eu já quis sufocar essa fúria. Já tentei afogá-la em silêncios forçados, já quis fingir que não sentia. Mas, toda vez que a ignorei, ela encontrou um jeito de gritar dentro de mim, como se dissesse: “eu existo porque você se importa”.

A fúria ensina. Ensina que algo precisa mudar. Ensina que há coisas que não podem ser aceitas em silêncio. Ensina que há vida fervendo no peito, e que ignorá-la seria a maior das injustiças.

Então, da próxima vez que sentir a fúria ardendo por dentro, respire fundo. Escute o que ela quer dizer. Talvez, bem ali, entre o fogo e a inquietação, esteja a chave para algo maior: a coragem de transformar.

Publicado por

Assine nossa NewsLetter

Assine gratuitamente e receba os textos em primeira mão!

Continue lendo