Não me recordo exatamente se foi em uma segunda ou sexta-feira, mas sei que era um dia comum, sem nada que sugerisse que algo especial aconteceria. Eu estava em uma cidade desconhecida, esperando minha carona, quando decidi entrar em uma farmácia. A ideia era apenas passar o tempo, já que a tarde parecia se arrastar sem pressa, depois de uma reunião frustrada de trabalho.
O lugar estava quase vazio, silencioso, exceto pelo som esporádico do ventilador girando no teto e do rádio baixo no balcão. Passei pelos corredores, observando remédios, cosméticos e itens de higiene pessoal como se fosse um ritual de distração. Depois de algumas voltas sem destino, reparei na balconista, que me olhava com um leve sorriso no rosto.
— Procurando alguma coisa? — perguntou ela, com um tom amigável.
— Acho que não. Só matando o tempo — respondi, sorrindo de volta.
E foi assim que começamos a conversar. Seu nome eu não lembro, mas me recordo do brilho curioso em seus olhos e do cabelo cacheado, solto, emoldurando seu rosto de forma natural. Ela era poucos anos mais velha do que eu, mas parecia carregar consigo uma sabedoria tranquila, daquelas que se adquirem mais com as experiências simples do que com os livros.
Falou-me sobre sua cidade natal, um lugar pequeno, onde quase todo mundo se conhecia. Contou que se mudou para o sul em busca de novas oportunidades, mas que ainda sentia falta do cheiro das manhãs no campo e da simplicidade da vida que levava antes. Sabia muito sobre hortas, verduras, e me explicou, com um entusiasmo genuíno, como escolher os melhores vegetais no mercado, já que vinha de uma família que produzia alfaces.
“Os de hoje não estão bons”, disse ela, observando minha expressão de curiosidade. Fiquei surpresa com seu olhar atento para detalhes que, até então, nunca tinham me parecido importantes.
O tempo passou sem que percebêssemos. Entre um cliente e outro — poucos, diga-se de passagem —, conversamos sobre um pouco de tudo. Falamos sobre viagens, sobre mudanças, sobre como a vida pode ser inesperada. Ela me contou sobre seus sogros, pessoas que a acolheram como se fosse filha, e sobre o dia em que a levaram à praia pela primeira vez.
“Foi mágico”, disse ela, e seus olhos brilharam ao lembrar-se do momento. A felicidade na sua expressão era quase palpável, como se ela ainda sentisse o gosto salgado do mar e o vento bagunçando seus cachos.
Fiquei fascinada com suas histórias, mas, mais do que isso, com a forma como as contava, como se cada lembrança fosse um pequeno tesouro. Às vezes, enquanto falava, eu reparava na forma como seus olhos pareciam se perder no passado antes de voltar para mim, retomando a conversa.
A farmácia foi ficando mais silenciosa à medida que a tarde avançava. Em algum momento, nos demos conta de que havíamos passado quase quatro horas ali, conversando como se fôssemos amigas de longa data. O tempo, que antes parecia arrastar-se, de repente, corria rápido demais.
Quando finalmente chegou a hora de ir embora, nos despedimos com um abraço apertado, como se, por um instante, fôssemos velhas conhecidas prestes a seguir caminhos diferentes. Ela sorriu e disse:
— Foi um prazer te conhecer! Continue com esse sorriso, Sky! Espero que goste daqui!
Eu sorri de volta, sem saber ao certo o que responder. Nunca mais voltei àquela cidade. Nunca mais vi aquela mulher de olhos brilhantes e cachos livres. Mas, de alguma forma, lembro-me dela com carinho, afinal, talvez nós duas precisássemos de uma boa conversa naquela tarde.
Na lembrança de uma conversa inesperada. No calor de um abraço que não precisava de palavras. No sentimento de que, às vezes, os encontros mais breves são os que deixam as marcas mais profundas. Coisa de livro, né? Mas juro que essa história foi real!
E, por mais efêmero que tenha sido, aquele instante se tornou parte da minha história.
