Primeiramente, preciso confessar que essa foi a primeira obra do Makoto que tive contato na vida: o pessoal da igreja “Família dos que Creem” lançou um clube de leitura do livro e logo embarquei nessa jornada.

Tivemos encontros semanais – minhas manhãs de sábado foram preenchidas por encontros surpreendentemente cheios de conteúdo e significado: eram, de fato, debates profundos sobre o tema.

Arte sempre foi um assunto que me chamou atenção – e acredito que isso tenha uma influência da minha família – então, quando me converti, essa curiosidade não poderia deixar de aflorar ainda mais em mim. Preciso pontuar veemente que não sou uma especialista no assunto: não pinto obras com perfeição, tampouco me considero uma musicista, mas cá estou, uma pessoa apaixonada por arte e pela beleza.

Pois bem. Ultrapassados os parágrafos paroquiais, vamos à análise de fato.

Acho importante destacar que Makoto, pelo que podemos entender por seus livros, aprendeu muito com Timothy Keller, um influente escritor cristão, que possui obras profundas que trazem a simplicidade do verdadeiro evangelho.

Combinando sua experiência como pintor com reflexões teológicas e culturais, Fujimura estabelece uma ponte entre o universo artístico e o espiritual, desafiando não apenas artistas, mas todos aqueles que buscam uma compreensão mais profunda da relação entre a beleza, a fé e o propósito da existência humana.

Além disso, o fato do ofício do autor ser integralmente artístico, por si só carrega uma credibilidade que valida toda a narrativa e a construção de raciocínio.


Logo no início, Fujimura nos apresenta um princípio transformador: a criatividade não é apenas uma habilidade humana, mas um atributo divino compartilhado com a humanidade. Ele se baseia no relato da criação em Gênesis, onde Deus é apresentado como o primeiro artista, moldando o universo com ordem e beleza a partir do caos. Nesse sentido, aponta que a criatividade, portanto, não é apenas um reflexo da imagem de Deus em nós, mas também um convite para participar de Sua obra criativa no mundo.

Uma observação pessoal: Acredito, de todo meu coração, que como filhos de Deus temos a responsabilidade de manifestar seu DNA criativo em todas as áreas, e não somente a área artística. Seja na resolução de problemas, organização de um lar ou novas ideias, existe um impulso natural do ser humano em possuir essa característica, que é manifestada em graus diferentes em cada indivíduo ou até mesmo de modo multiforme.

Fujimura, então, questiona, então, a visão utilitarista da arte predominante em nossa cultura, que valoriza o fazer pelo fazer ou a produção pela produtividade. Para ele, criar algo belo e intencional, mesmo sem uma função aparente, é um ato quase que sagrado – o que faz muito sentido, considerando o ócio criativo que aos poucos está sendo abandonado.

Assim, ao engajarmo-nos na criatividade, estamos testemunhando o caráter de Deus e vivendo o Evangelho de forma concreta.


Um dos conceitos centrais do livro é a “teologia da criação”, que Fujimura desenvolve como uma lente para compreender o propósito da arte e da fé no mundo, argumentando que a criação artística não é apenas uma atividade cultural, mas uma expressão espiritual que reflete o próprio Evangelho.

Assim, ao criarmos algo belo, participamos do grande drama da redenção, apontando para o Deus que continuamente restaura o quebrado e traz ordem ao caos (!!!!!!!).

Uma observação pessoal: Um outro livro que traz essa perspectiva, são as primeiras páginas do livro “O que é uma família?”, de Edith Schaeffer (inclusive temos um post somente sobre essa obra).

A arte, segundo Fujimura, não apenas expressa beleza, mas também comunica verdades espirituais profundas. Quando o artista cria, ele se torna um “cocriador” com Deus, alguém que colabora com o Criador no propósito de restaurar e renovar todas as coisas.

Uma observação pessoal: Essa lógica me fez voltar a criar coisas com minhas próprias mãos, mesmo que não fossem propriamente funcionais para serem expostas ou compartilhadas com muitas pessoas – afinal, nem 10% da minha “produção” chegam aos olhos curiosos dos meus.

Essa perspectiva desafia a visão limitada de que a arte deve ser funcional para ser valiosa, convidando-nos a enxergar a beleza como um reflexo do caráter de Deus.


Ainda, o autor traz para o centro de sua obra a prática japonesa do kintsugi, a arte de reparar cerâmicas quebradas com ouro, transformando-as em algo ainda mais belo do que eram antes de serem quebradas.

Ele utiliza essa tradição como uma metáfora poderosa para a redenção que encontramos no Evangelho: Assim como o kintsugi transforma o que está quebrado em algo precioso, a arte tem o potencial de restaurar, curar e trazer beleza a situações de dor e fragmentação.

Uma observação pessoal: Uma vez ouvi que o Senhor sempre destrói e constrói algo novo, e nada poderia estar mais equivocado do que isso. Experimento essa situação quase que diariamente em minha área emocional, experimentando a redenção do Senhor sobre essa área da minha vida 🙂

Para Fujimura, o kintsugi também representa a maneira como Deus trabalha em nossa vida. Ele não apenas conserta nossas feridas e falhas, mas as transforma em algo que pode refletir Sua glória de maneira única.


Outro aspecto marcante do livro é a ideia de que a arte pode ser um ato de resistência em um mundo marcado pela desesperança e pelo pragmatismo.

Fujimura defende que criar beleza, especialmente em meio ao sofrimento, é um ato profundamente contracultural que aponta para a esperança do Reino de Deus.

Ele critica a tendência moderna de reduzir a arte a um instrumento de consumo ou entretenimento, destacando que a verdadeira arte transcende essas limitações.

A beleza, segundo ele, é uma força que pode abrir corações, curar feridas e inspirar transformação, considerando que, para o cristão, criar beleza é um testemunho do Evangelho, uma declaração de que há esperança mesmo nas circunstâncias mais sombrias.


A forma em que aborda os desafios enfrentados pelos artistas cristãos em um contexto onde a arte muitas vezes é vista como algo supérfluo ou secundário, é muito interessante.

Nesse sentido, é argumentado que a comunidade de fé precisa valorizar mais a arte como uma expressão legítima da espiritualidade, e não apenas como uma ferramenta de evangelismo ou adoração.

Para ele, a arte cristã não deve ser limitada a um “conteúdo religioso” explícito, mas deve ser livre para explorar a beleza, a complexidade e o mistério do mundo que Deus criou. Ele encoraja os artistas a abraçarem sua vocação com coragem, confiando que o ato de criar, por si só, já glorifica a Deus.


Por fim, Fujimura conclui sua obra com uma poderosa reflexão sobre o papel da beleza na redenção do mundo, destacando que, no cerne da mensagem cristã, está a promessa de que Deus fará “novas todas as coisas” (Apocalipse 21:5).

A arte, nesse sentido, é uma antecipação desse futuro glorioso, uma maneira de apontar para o que está por vir.

A beleza, segundo ele, tem o poder de transcender barreiras, conectar pessoas e abrir caminhos para a transformação. Em um mundo que frequentemente valoriza a utilidade acima de tudo, Fujimura nos lembra que a beleza é, em si mesma, uma forma de resistência e uma expressão da esperança cristã.


Esse não é apenas um livro sobre arte ou espiritualidade, é como uma conversa íntima que te convida a enxergar sua própria vida como uma obra de arte única, sendo moldada pelo amor e pela graça de Deus.

Se você está buscando algo que vá além do comum, que te inspire profundamente e te faça repensar sua relação com a fé e com sua própria criatividade, esse livro é um presente: Ele não apenas amplia a visão sobre arte e teologia, mas também nos ajuda a enxergar nossas vidas de forma mais leve, como testemunhos vivos da beleza e da redenção de Deus.

É o tipo de leitura que te transforma por dentro.

Você, ainda, pode conferir mais do trabalho do autor Makoto Fujimura clicando aqui.

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