Nesse final de semana, ao refletir sobre minha personalidade, percebi algo que sempre esteve presente em mim: uma tendência forte de evitar conflitos. Não sou alguém que perde a calma facilmente: Para me tirar do sério, é preciso bastante empenho e muito tempo. E, por mais que isso pareça uma característica positiva à primeira vista, comecei a perceber que essa minha natureza calma não é uma virtude em 100% dos casos.

A verdade é que os conflitos são, em muitas situações, necessários, afinal, eles nos ajudam a enfrentar desafios, a lidar com questões que, de outra forma, permaneceriam encobertas, não resolvidas, e que, com o tempo, se tornam problemas maiores.

Ao evitar conflitos, frequentemente criamos o ambiente perfeito para o surgimento de “elefantes brancos” na sala — aquelas questões enormes, evidentes, mas que ninguém ousa mencionar.

Foi nesse contexto que me veio à mente uma crônica que talvez possa te ajudar a enxergar de outra forma essa tendência de evitar confrontos, assim como me ajudou a entender a importância de encarar o que precisa ser resolvido.

Vamos ao ponto: os elefantes brancos não desaparecem sozinhos. Eles crescem, ocupam mais espaço, e eventualmente, sufocam o ambiente.

Espero que essa reflexão possa ajudar sua jornada pessoal 🙂

Naquela mesma sala de reuniões, onde os elefantes brancos pareciam ganhar vida, um personagem em especial destoava do restante: Gustavo. De personalidade sanguínea, Gustavo era o oposto de João. Se João evitava conflitos a qualquer custo, Gustavo os abraçava como um velho amigo. Sempre falante, expansivo, e com o espírito de alguém que agia primeiro e pensava depois, Gustavo nunca deixava uma oportunidade de colocar os pingos nos “is” passar despercebida.

Se havia algo mal resolvido, lá estava ele, pronto para tirar o problema da sombra e colocá-lo bem no centro da mesa, como se fosse uma carta jogada com força em um jogo de pôquer. Era como o apóstolo Pedro: impulsivo, direto, e muitas vezes falava antes de pensar, o que o colocava em situações complicadas. Mas, ao mesmo tempo, sua autenticidade e paixão o faziam ser respeitado, mesmo por aqueles que o achavam um pouco exagerado.

Naquela manhã, Gustavo também sentia o peso dos elefantes, mas, ao contrário de João, ele estava prestes a provocar uma explosão. Quando sua colega mencionou o “elefante na sala”, Gustavo, que já se remexia impacientemente na cadeira, não perdeu tempo.

“Finalmente!” – exclamou, levantando-se abruptamente. “Esses elefantes já estão me irritando faz tempo. E vou falar logo: isso tudo está insustentável porque ninguém tem coragem de colocar as coisas às claras! Não é possível continuar assim, dançando em volta dos problemas como se eles fossem desaparecer sozinhos.”

João sentiu o estômago revirar ao ouvir as palavras de Gustavo. Era exatamente o tipo de confronto que ele sempre evitara. Mas, ao mesmo tempo, sabia que o sanguíneo ali estava trazendo à tona algo que, no fundo, todos precisavam encarar. Gustavo continuou, gesticulando de forma exagerada, seu rosto vermelho de empolgação:

“Querem um exemplo? A questão do projeto que ninguém quer discutir. Todo mundo sabe que está mal planejado, mas ninguém fala nada! E o desentendimento entre a equipe de vendas e o financeiro? Está prejudicando o trabalho de todos, mas ninguém tem coragem de sentar e resolver.”

Enquanto Gustavo falava, os elefantes pareciam diminuir de tamanho, como se, a cada palavra dita, perdessem parte do seu poder. João, ainda nervoso, mas inspirado pelo colega sanguíneo, encontrou sua própria voz. Ele respirou fundo e, mesmo com hesitação, juntou-se à conversa:

“Eu… eu acho que Gustavo tem razão. Temos evitado esses problemas por tempo demais. Eu sempre achei que evitar o confronto manteria as coisas mais calmas, mas agora vejo que só piorou.”

A combinação entre a impulsividade de Gustavo e a recém-descoberta coragem de João trouxe uma mudança no ambiente. O restante da equipe, inspirada por ambos, começou a falar. Aos poucos, todos os elefantes da sala foram sendo mencionados, discutidos, e, embora ainda houvesse discordâncias e dificuldades, finalmente havia espaço para o diálogo. Os elefantes foram sumindo.

Gustavo, apesar de sua impulsividade, sabia como transformar o conflito em algo produtivo. Sua natureza sanguínea não permitia que as coisas fossem empurradas com a barriga, e, naquela manhã, sua energia foi o catalisador de uma mudança importante. João, por outro lado, aprendeu que o confronto, mesmo assustador, pode ser o primeiro passo para a resolução de problemas.

No fim, os elefantes ainda existiam, mas eram menores, domáveis. E na sala de reuniões, onde antes reinava o silêncio desconfortável, agora havia espaço para conversas honestas. João e Gustavo, com suas personalidades tão distintas, descobriram que, juntos, podiam encarar qualquer elefante branco que aparecesse.

A crônica dos “elefantes brancos na sala” também pode ser lida à luz de uma responsabilidade cristã. No contexto da fé cristã, somos chamados a sermos responsáveis não apenas por nossas ações, mas também por confrontar os desafios da vida com honestidade e coragem, confiando em Deus para nos capacitar nesse processo.

No início, João, que evita conflitos, reflete uma tendência humana comum: ignorar os problemas e fingir que, se não os confrontarmos, eles desaparecerão. No entanto, a Bíblia nos ensina que somos chamados a ser “sal da terra” e “luz do mundo” (Mateus 5:13-14), o que implica em viver com responsabilidade, sem deixar que o medo de conflitos ou o desejo de conforto nos impeçam de agir corretamente.

Assim como os “elefantes” metafóricos na crônica representam questões não resolvidas, no contexto cristão, podemos compará-los aos pecados ocultos, às omissões ou até às injustiças que vemos ao nosso redor e escolhemos ignorar.

Gálatas 6:1-2 nos ensina que devemos “corrigir com espírito de mansidão” aqueles que erram, e carregar “os fardos uns dos outros”. Isso significa que temos a responsabilidade de nos envolvermos em situações difíceis e ajudar os outros a encontrar um caminho de justiça e paz, em vez de evitar conflitos e permitir que o problema se agrave.

João, em sua postura inicial de evitar o confronto, lembra-nos da tentação de ser passivos diante de situações que exigem ação, uma atitude que muitas vezes pode ser confundida com paz, mas que, na verdade, se alinha mais com a omissão.

Entretanto, em Tiago 4:17, somos lembrados de que “aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz, nisso está pecando”.

A responsabilidade cristã vai além de evitar o erro; ela nos chama a tomar iniciativas corretas, mesmo que sejam difíceis ou desconfortáveis.

Quando Gustavo, com sua personalidade sanguínea, aborda os conflitos de maneira direta, ele nos lembra que, em certas situações, o confronto é necessário. No entanto, como cristãos, somos chamados a lidar com esses desafios com amor e paciência, conforme Colossenses 3:12-13 nos ensina: “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, de misericórdia, benignidade, humildade, mansidão e longanimidade; suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente”.

A coragem de Gustavo é importante, mas precisa ser temperada com graça e discernimento.

A crônica nos ensina que ser responsável, à luz da fé cristã, é reconhecer que os “elefantes” – sejam pecados pessoais, conflitos interpessoais ou injustiças ao nosso redor – não podem ser ignorados. Em vez disso, somos chamados a enfrentá-los com a coragem que vem de Deus, sabendo que nossa força e sabedoria para lidar com os desafios da vida não vêm de nós mesmos, mas da graça de Deus.

Além disso, a parábola dos talentos (Mateus 25:14-30) nos lembra que seremos responsabilizados pelo que fazemos com aquilo que nos foi confiado. João, ao evitar o conflito, estava enterrando o talento, fugindo de sua responsabilidade de trazer à luz aquilo que precisava ser resolvido. Gustavo, com sua abordagem impulsiva, estava disposto a agir, mas precisava do equilíbrio e da mansidão cristã para que sua atitude fosse produtiva e edificante para os outros.

Somos desafiados a encontrar o equilíbrio entre a coragem de agir e a sabedoria de fazê-lo em amor. Somos chamados a não ignorar os problemas, a ser agentes de paz e reconciliação, mas também a sermos responsáveis e proativos, entendendo que, no Reino de Deus, cada um de nós tem um papel importante a desempenhar na edificação dos outros e na correção amorosa dos erros.

E como é bom termos amigos sinceros, e não puxa-sacos! Sinceridade deveria ser uma virtude cultivada em nossos relacionamentos interpessoais.

Assim, enfrentar os “elefantes brancos” em nossa vida e comunidade, no contexto cristão, é mais do que apenas uma questão de coragem ou confrontação; é uma questão de obediência e amor.

Somos responsáveis por nossa parte em trazer luz às áreas sombrias, confiando que Deus, com sua misericórdia e bondade, nos capacitará para enfrentar até os desafios mais difíceis com graça e verdade 🙂

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