Eu nunca fui aquela pessoa que corre para a praia em toda oportunidade, mesmo morando em uma cidade litorânea. Acho que isso é até comum, né? A gente acaba se acostumando com o que os turistas acham maravilhoso. Esse ano mesmo, fui poucas vezes, e a maioria delas nem foi para curtir o mar, mas para caminhar, sentir o cheiro mais de perto, porque, de um jeito ou de outro, ele está sempre presente.

É engraçado como o cheiro do mar parece invadir tudo por aqui, tem dias que a maresia é tão forte que saio de casa e parece que estou passando em frente a uma peixaria. Mas, por mais estranho que possa parecer, traz conforto, familiaridade. Esse cheiro de mar tem um jeito de me puxar para o passado, me trazendo de volta as lembranças mais doces da minha infância, é como se o cheiro de mar fosse o cheiro de “casa”.

Lembro das vezes que minha vó vinha de Minas Gerais para nos visitar e, mesmo tão longe do litoral, a maresia estava lá, sutil, mas presente, enquanto ela me puxava para passear com o cachorro pela vizinhança. Eu era tão pequena, e ela, com aquela paciência que só vó tem, me levava pelas mãos, e o cachorro destrambelhado corria para todos os lados.

A casa onde nasci, amarela e quase à beira da praia, tinha um quintal que para mim era um mundo, com um Flamboyant gigantesco que tingia o chão de vermelho no verão e os canteiros cheios de flor-de-beijo, até que o cachorro decidiu fazer seu próprio caminho destruindo tudo, como se o quintal fosse só dele.

As tardes de verão também me vêm à mente, e eu adorava quando as pessoas, indo para a praia, passavam pela nossa rua e me perguntavam as horas. Eu corria para dentro de casa, com o coração acelerado de empolgação, só para olhar o relógio e voltar com a resposta, era como se naquele momento eu tivesse uma importância enorme, uma pequena missão cumprida. E depois, quase como um ritual de verão, vinham as tempestades de granizo, e eu e minha irmã corríamos para a janela, competindo para ver quem enxergava a maior pedra de gelo caindo do céu.

Tudo isso, sempre, com o cheiro do mar invadindo a casa, como uma presença constante que nunca pedia licença, mas era sempre bem-vinda.

E é claro que o mar não é só lembrança de dias de tempestade ou tardes na janela, ele também tem a ver com família. Aqueles acampamentos de praia eram um evento! Saíamos de casa antes do sol nascer, cheios de malas, caixas térmicas e colchões infláveis que teimavam em esvaziar ao menor movimento. Montávamos tendas na areia, passávamos o dia entre mergulhos e caminhadas, e quando a noite caía, voltávamos exaustos, mas com o coração leve, carregados de risadas e histórias. E lá estava a maresia, misturada ao cheiro de sanduíche de atum, de frango, de bebida gelada, tudo embalado pela brisa que soprava do mar.

Mesmo eu não sendo aquela pessoa que está sempre na praia, o cheiro de mar tem um significado profundo para mim, ele tem cheiro de casa, de vida, de momentos que, mesmo que o tempo leve embora, ficam guardados em algum lugar, prontos para voltar à tona a qualquer brisa mais forte.

O mar não é só cenário, ele é como uma linha que costura todas essas memórias, uma presença constante, silenciosa, que de alguma forma está sempre lá, seja nas pequenas alegrias da infância ou nos momentos mais intensos da vida adulta.

Poesia – O Cheiro do Mar

O cheiro do mar me envolve e me leva de volta,
a um tempo onde a vida era simples e a brisa era doce,
onde o vento salgado trazia risadas,
e o som das ondas misturava-se com vozes conhecidas,
o mar, sempre presente, era mais do que água,
era memória, era lar, era família.

Minha vó, de longe, puxando minha mão,
os passeios com o cachorro, que era parte do caos e da paz,
as tardes de verão que nunca pareciam acabar,
onde eu corria para ver as horas,
e o simples ato de responder a uma pergunta fazia o dia valer,
o cheiro do mar estava lá, em cada detalhe.

E nas tempestades, onde a chuva trazia granizo,
minha irmã e eu na janela, em uma competição boba,
quem via a maior pedra, quem ria mais alto,
tudo com o cheiro de mar invadindo cada canto da casa,
como se ele fosse parte de nós, como se ele soubesse que ali,
no meio de tantas pequenas memórias, ele também tinha seu lugar.

O cheiro do mar é mais do que um simples aroma,
é o que me traz de volta, é o que me faz lembrar,
que mesmo que a vida siga em frente,
essas ondas de lembranças sempre vão me encontrar,
porque o mar, com toda sua imensidão e calma,
não é só o oceano, ele é casa.

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